Portugal Oculto // Pessoa e o Esoterismo

Fernando Pessoa e Aleister Crowley: a morte encenada na Boca do Inferno

Entre cartas astrológicas, uma cigarreira esquecida nas rochas e uma polícia confusa, o poeta e o mago urdiram, em Cascais, uma das encenações mais insólitas do século XX.

Fernando Pessoa e Aleister Crowley: a morte encenada na Boca do Inferno
// Prólogo

Uma carta que atravessou o Atlântico

Tudo começou, como tantas vezes na vida de Fernando Pessoa, com um papel e um cálculo. Em dezembro de 1929, ao escrever à editora responsável pelas 'Confissões' de Aleister Crowley, Pessoa não resistiu a acrescentar uma nota técnica: o horóscopo do mago inglês, tal como publicado, não estava retificado. Propunha-lhe, com a frieza de quem trata de rotina profissional, uma outra hora de nascimento.

Não era um gesto isolado. Pessoa levava a astrologia muito a sério — usara mais de dois mil papéis do seu espólio em textos e cálculos astrológicos, levantara centenas de mapas, de si próprio, de Portugal, de figuras como Shakespeare, Napoleão ou Oscar Wilde. Chegara a pensar em viver disso e criara mesmo um heterónimo astrólogo, Raphael Baldaya. Para Pessoa, os astros não eram metáfora: eram instrumento de conhecimento, quase uma segunda escrita.

Crowley respondeu à correção. E essa troca de cartas sobre graus e ascendentes foi o fio que, meses depois, haveria de trazer o mago a Lisboa.

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// O encontro

Um mago em Lisboa

A 2 de setembro de 1930, Aleister Crowley desembarcou na capital portuguesa, acompanhado da jovem alemã Hanni Jaeger. Pessoa esperava-o no cais — o poeta discreto e metódico, tradutor pouco conhecido fora dos seus círculos, e o ocultista mais notório da Europa, cuja fama (e infâmia) o precedia em qualquer porto onde atracasse.

O contraste entre os dois homens não podia ser maior: Crowley, extravagante, teatral, construtor da própria lenda; Pessoa, contido, cumpridor de horários de escritório, vivendo a vida interior em heterónimos e cartas astrais. E, no entanto, encontraram-se, e dessa relação ficou um gesto concreto: Pessoa traduziu o 'Hino a Pã' de Crowley, publicado na revista Presença em 1931 — prova de uma cumplicidade literária que ultrapassava a curiosidade esotérica.

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// A encenação

As rochas da Boca do Inferno

Três semanas depois da chegada, o enredo precipitou-se. Nas rochas da Boca do Inferno, em Cascais — esse recorte de costa onde o Atlântico esmurra a pedra com um estrondo que lhe deu o nome —, encontraram-se uma carta de despedida e uma cigarreira. A imprensa não hesitou: falava-se de suicídio. O mago extravagante tinha, ao que tudo indicava, atirado-se ao mar.

Pessoa, chamado pela polícia para esclarecer o sucedido, não desfez o mistério — alimentou-o. Disse ter visto Crowley depois do suposto desaparecimento, lançando mais uma camada de dúvida sobre um caso que já de si prestava para manchete. Segundo os registos jornalísticos da época, Pessoa terá entregado aos jornais a carta de despedida de Crowley, explicando aos jornalistas e à polícia os símbolos thelémicos nela contidos e traduzindo passagens de português confuso — um pormenor que sugere participação direta, e não apenas passiva, na encenação.

Enquanto Lisboa especulava, Crowley saía discretamente pela fronteira. Reapareceu semanas depois em Berlim, na abertura de uma exposição das suas pinturas na galeria Neumann-Nierendorf — ressurreição pública e calculada que muitos leram, já na altura, como manobra publicitária mais do que tragédia real.

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// Pistas e documentos

O que os arquivos guardaram

O episódio ficou conhecido entre estudiosos como o 'Mistério da Boca do Inferno', e durante décadas pairou sobre ele uma névoa de lenda — cada relato acrescentando um pormenor, cada biógrafo reajustando a cronologia. Foi só com a investigação de Marco Pasi, publicada em 2012 na revista Pessoa Plural, que um diário de Crowley relativo a esta viagem, há muito dado como perdido ou inacessível, veio à luz, permitindo reconstituir com mais rigor os movimentos do mago em Portugal e os seus encontros com Pessoa.

Há ainda quem aponte outro nome envolvido na trama: o jornalista e ocultista Augusto Ferreira Gomes, referido em registos da época como colaborador na credibilização da história junto de jornais nacionais, como o Diário de Notícias, e estrangeiros. A trama, portanto, não foi obra de dois homens isolados, mas de uma pequena rede de cumplicidades lisboetas.

Segundo a tradição divulgada por alguns autores, a encenação de Crowley na Boca do Inferno teria sido inspirada na morte lendária do filósofo grego Empédocles, que se atirara a um vulcão para provar a própria divindade — um gesto que, tal como o de Crowley, misturava filosofia, espetáculo e desaparecimento voluntário.

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// Duas vocações

O poeta que tratava os astros a sério

Para compreender por que razão Pessoa aceitou este papel — tradutor de símbolos, testemunha ambígua, quase cúmplice de um jornalista perante a polícia —, é preciso lembrar que o esoterismo não era, para ele, curiosidade de salão. Pessoa dava datas de nascimento aos seus próprios heterónimos e traçava-lhes horóscopos: Caeiro, Reis e Campos nasceram, para Pessoa, com céu próprio, como se fossem almas reais e não apenas máscaras literárias.

Um homem que tratava personagens inventadas como entidades com mapa astral próprio não veria nada de estranho em ajudar um mago a reescrever, por uns dias, a sua própria biografia pública. A Boca do Inferno tornou-se, assim, menos um capricho isolado e mais uma extensão natural de uma mentalidade que já vivia confortavelmente entre o literal e o simbólico.

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O que fica

Resta um facto bem documentado: Crowley esteve em Lisboa em setembro de 1930, encontrou-se com Pessoa, encenou um desaparecimento na Boca do Inferno e reapareceu, semanas depois, em Berlim. Resta também uma zona de sombra legítima — até que ponto a participação de Pessoa foi planeada ao detalhe ou foi apenas um jogo de cumplicidade crescente, à medida que a história ganhava vida própria nos jornais.

O que o episódio revela, acima de tudo, é a dimensão oculta de um dos maiores poetas portugueses: um homem que levava os astros tão a sério que podia, sem contradição, ajudar um mago inglês a brincar com a própria morte à beira do Atlântico.

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// Perguntas frequentes

Fernando Pessoa e Aleister Crowley chegaram a encontrar-se mesmo?

Sim. Encontraram-se em Lisboa em setembro de 1930, depois de uma troca de correspondência iniciada em dezembro de 1929, motivada por uma correção que Pessoa propôs ao horóscopo de Crowley.

O que aconteceu na Boca do Inferno em 1930?

Encontraram-se nas rochas uma carta de despedida e uma cigarreira de Crowley, levando a imprensa a noticiar um suicídio. Três semanas depois, Crowley reapareceu em Berlim, são e salvo.

Qual foi o papel de Pessoa na encenação?

Pessoa foi interrogado pela polícia e alimentou o mistério dizendo ter visto Crowley depois do suposto desaparecimento; segundo relatos da época, também ajudou a explicar aos jornais os símbolos presentes na carta de despedida.

Porque fingiu Crowley a própria morte?

As fontes sugerem que terá sido sobretudo uma manobra publicitária, reforçada pelo facto de Crowley ter reaparecido semanas depois numa exposição das suas pinturas em Berlim.

☾

Entre um horóscopo retificado e uma cigarreira nas rochas, Lisboa guardou, por três semanas, o segredo de um mago que fingiu morrer.

— Oraculuminus

Fontes

Artigo elaborado pela equipa do Oraculuminus a partir das fontes indicadas e revisto antes de ser publicado. As tradições e lendas são apresentadas como tal.

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