Mistérios // Mesopotâmia Antiga

Os Anunnaki: o que dizem mesmo as tábuas sumérias

Entre a assembleia divina do Ekur e a teoria do 12.º Planeta, há um fosso de quatro mil anos que vale a pena atravessar com cuidado.

Os Anunnaki: o que dizem mesmo as tábuas sumérias
// Prólogo

Deuses que cansam, deuses que dormem mal

Antes de qualquer nave espacial, antes de qualquer Nibiru, há uma palavra gravada em barro: Anunnaki. Surge em inscrições do reinado de Gudea, por volta de 2144 a 2124 a.C., e em textos da Terceira Dinastia de Ur, para designar os deuses mais poderosos do panteão sumério — descendentes de An, o céu. O próprio nome, segundo os assiriólogos, significa algo como 'descendência de An' ou 'descendência principesca'. Não há mistério de tradução aqui, nem código escondido: é um título de linhagem divina, tão directo como chamar a alguém 'filho do rei'.

Com o passar dos séculos, o sentido desliza. Na época paleobabilónica, Anunnaki passa a designar sobretudo os deuses da terra e do mundo inferior, em oposição aos Igigi, os deuses do céu. É uma distinção de hierarquia e de função, não de origem cósmica. Os Anunnaki sentam-se, os Igigi trabalham — e é exactamente essa divisão de trabalho, bem terrena, que vai desencadear toda a história que a Mesopotâmia nos deixou sobre a criação do ser humano.

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// A Assembleia

A assembleia no Jardim dos Deuses

Os textos sumérios imaginam os deuses organizados como uma espécie de conselho. O Ekur, cujo nome significa 'casa-montanha', era tido como o local dessa assembleia, situado no chamado Jardim dos Deuses — um equivalente sumério ao Monte Olimpo. A assembleia tinha mesmo um nome técnico: Ukkin em sumério, Puḫru ou Puḫrum em acádio, sendo a reunião divina especificamente chamada Puḫru Ilani. No texto 'Enki e a Ordem do Mundo', preservado no Corpus Eletrónico de Literatura Suméria de Oxford, é o próprio Enlil quem se dirige aos deuses Anuna reunidos nessa assembleia, a Ubšu-unkena — prova textual de que esta estrutura existia muito antes de qualquer leitura moderna lhe ser sobreposta.

Os assiriólogos vêem nesta assembleia divina um espelho mítico de algo muito real: o sistema de governo semidemocrático que vigorou durante a Terceira Dinastia de Ur, por volta de 2112 a 2004 a.C. Os deuses deliberam, votam por sorteio, dividem territórios — tal como, nessa época, um conselho de homens poderoso decidia os destinos da cidade. Na tábua I de Atrahasis, é precisamente por sorteio que o céu fica sob Anu, a terra sob Enlil e o mar de água doce sob Enki. Mito e organização política andam de mãos dadas.

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// Atrahasis

Atrahasis: o cansaço que criou a humanidade

É no poema babilónico de Atrahasis, conhecido por cópias do início do segundo milénio a.C., que a história ganha corpo. Enlil encarrega os deuses menores, os Igigi, de trabalhos agrícolas e da manutenção de rios e canais. Ao fim de quarenta anos de trabalho pesado, os Igigi rebelam-se: abandonam as ferramentas e marcham em protesto até à morada de Enlil. Sentem-se explorados — e não é difícil perceber porquê, já que os Anunnaki, os deuses maiores, não cavam nada: são eles quem é servido.

Foi Enki quem sugeriu a solução: criar um novo trabalhador para aliviar os Igigi desse fardo. Chamada a deusa do parto, o ser humano é moldado a partir de barro e do sangue de um deus. Nasce, assim, a humanidade — não como obra de amor ou de propósito elevado, mas como mão-de-obra de substituição numa disputa laboral entre deuses. Em 1965, Wilfred G. Lambert e Alan Millard publicaram novos textos do poema, incluindo uma cópia paleobabilónica de cerca de 1650 a.C., a recensão mais completa então conhecida, que serviu de base à primeira tradução inglesa quase completa do poema, editada em 1969.

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// O Dilúvio

O dilúvio antes de Noé

A história não acaba na criação. Os humanos multiplicam-se e fazem tanto barulho que Enlil, perturbado no seu descanso, passa a considerar a criação da humanidade um erro a corrigir. Primeiro envia uma peste; depois, uma fome. Em ambos os casos, Enki intervém secretamente em socorro dos humanos. Esgotada a paciência, Enlil decide finalmente desencadear um dilúvio para destruir toda a humanidade de uma vez.

Mas Enki, ligado por juramento a não revelar o plano dos deuses, encontra um subterfúgio notável: fala às paredes de uma cabana de junco, sabendo que Atrahasis o ouvirá do outro lado, sem que ele próprio tenha quebrado formalmente o segredo. Instrui-o a construir um barco de forma cúbica, com telhado estanque 'como o Abzu', calafetado com betume, e a embarcar a família e os animais antes da tempestade. O dilúvio dura sete dias e sete noites. Quando cessa, Atrahasis oferece um sacrifício aos deuses — e Enlil, ao descobrir que a humanidade sobreviveu, enche-se de fúria. A mesma história reaparece, quase ponto por ponto, na tábua XI da Epopeia de Gilgamesh, onde Utnapishtim conta ao herói o mesmo relato de salvação pelas águas — um paralelo evidente com a arca de Noé, escrito muito antes do Génesis.

Separar-te-ás da casa, construirás um barco... e salvarás a vida.

— Instruções de Enki a Atrahasis, segundo o poema babilónico
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// Enuma Elish

Marduk, Tiamat e a outra história da criação

Há ainda um terceiro texto importante: o Enuma Elish, poema babilónico da criação. Nele, o deus Marduk derrota a deusa Tiamat, usa o seu corpo para formar o céu e a terra, e organiza o cosmos, distribuindo aos deuses os seus cargos. Na tábua VI, é o deus Ea quem cria a humanidade, de novo para que esta assuma o serviço dos deuses e os liberte do trabalho. As cópias conhecidas remontam a uma versão bem anterior ao reinado de Hammurabi, entre 1792 e 1750 a.C., sendo a versão com Marduk como herói considerada uma revisão de uma obra suméria ainda mais antiga.

É este mesmo poema que Zecharia Sitchin, em 'O 12.º Planeta' (1976), leu como um relato codificado da formação dos planetas, identificando Tiamat com um corpo celeste colidido por um suposto planeta Nibiru — uma colisão que, segundo ele, teria dado origem à cintura de asteroides e à própria Terra. É também Sitchin quem traduz Anunnaki como 'os que do céu vieram à terra', uma leitura que os dicionários acádios e sumérios não sustentam.

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// Sitchin

O que Sitchin acrescentou — e o que não está nas tábuas

A tese de Sitchin é conhecida: os Anunnaki seriam uma espécie humanoide vinda de Nibiru que, há cerca de 450 mil anos, teria chegado à Terra para minerar ouro — primeiro extraído da água do mar, depois escavado na África austral. Perante a revolta dos mineiros, cientistas anunnaki teriam cruzado os seus genes com os de um hominídeo primitivo para criar um novo trabalhador: o ser humano. Nibiru entraria no sistema solar interior a cada 3600 anos.

Os assiriólogos rejeitam ponto por ponto esta construção. Michael Heiser, cujas críticas estão reunidas na plataforma sitchiniswrong.com, mostra que Nibiru nunca é identificado, em nenhum texto cuneiforme, como planeta para além de Plutão; é por vezes chamado estrela, quase sempre associado a Júpiter-Marduk, nunca ligado aos Anunnaki nem descrito como habitado. Os próprios registos sumérios revelam que estes só conheciam cinco planetas, e os textos astronómicos cuneiformes param em Saturno, o limite do que é visível a olho nu. Mais: Nibiru era avistado todos os anos segundo esses textos, o que contradiz directamente um ciclo de 3600 anos. As palavras que Sitchin traduz como 'foguetões' não têm esse significado para os próprios mesopotâmicos. Sumerólogos e linguistas especializados classificam a obra como pseudo-história, apontando erros de tradução sistemáticos.

Mesmo assim, Heiser faz uma ressalva importante: rejeitar a tese extraterrestre não significa esvaziar o texto sumério do que ele próprio diz. Os antigos afirmam, com toda a clareza, que os seus deuses viviam entre eles e os governavam — uma ideia que merece ser levada a sério como relato dos antigos, independentemente de qualquer leitura extraterrestre.

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O que fica

Fica uma assembleia divina documentada em barro desde Gudea e Ur III, reunida simbolicamente no Ekur, decidindo por sorteio o destino do cosmos. Fica a revolta dos Igigi, a criação do ser humano para aliviar deuses cansados, e um dilúvio enviado por um deus perturbado pelo barulho dos vivos — avisado em segredo por outro deus que não queria quebrar juramento. Nada disto precisa de Nibiru para ser extraordinário: já o é, com quatro mil anos de distância.

O que não fica, por não existir em nenhuma tábua, é o planeta Nibiru como décimo segundo astro do sistema solar, os foguetões, ou os Anunnaki como mineiros extraterrestres de ouro. Isso é a camada que Sitchin construiu por cima do texto antigo — engenhosa, influente, mas sem apoio nos dicionários cuneiformes nem nos próprios poemas que afirma traduzir.

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// Perguntas frequentes

Os Anunnaki são mesmo mencionados nas tábuas sumérias?

Sim. O termo surge em inscrições desde o reinado de Gudea, cerca de 2144-2124 a.C., e designa os deuses mais poderosos do panteão sumério, descendentes de An.

O mito de Atrahasis é o mesmo que o dilúvio de Noé?

São relatos distintos mas claramente paralelos: no poema babilónico de Atrahasis, o sábio homónimo é avisado por Enki e constrói um barco para sobreviver a um dilúvio enviado por Enlil, uma história que reaparece quase igual na Epopeia de Gilgamesh.

Zecharia Sitchin inventou os Anunnaki?

Não inventou a existência dos Anunnaki nem o mito da criação do ser humano para trabalhar; isso está nas tábuas. Inventou sim a ligação a um planeta chamado Nibiru e a uma origem extraterrestre, ideias sem apoio nos textos cuneiformes.

O que é Nibiru segundo os textos originais mesopotâmicos?

Nos textos cuneiformes, Nibiru é associado quase sempre a Júpiter-Marduk, por vezes chamado estrela, avistado anualmente, e nunca descrito como planeta habitado ou ligado aos Anunnaki.

☾

O barro sumério já guardava deuses cansados e dilúvios; não precisava de naves para ser inesquecível.

— Oraculuminus

Fontes

Artigo elaborado pela equipa do Oraculuminus a partir das fontes indicadas e revisto antes de ser publicado. As tradições e lendas são apresentadas como tal.

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