Entre a hagiografia de um santo e o fascínio por feitiços, o livro mais proibido e mais vendido da espiritualidade popular ibérica esconde uma história mais complexa do que a lenda deixa adivinhar.

Há livros que vivem mais da sua lenda do que do seu conteúdo. O Livro de São Cipriano é um deles. Vende-se em bancas, feiras e lojas esotéricas de Portugal, da Galiza e do Brasil com nomes diversos — Capa Preta, Capa de Aço, Capa de Couro, Tesouro do Feiticeiro — e carrega, há mais de um século, a reputação de ser perigoso, profano, quase maldito. Mas por trás da capa escura esconde-se uma história bem mais sinuosa do que qualquer feitiço: a de um santo confundido com outro, de uma lenda hagiográfica transformada em manual popular, e de uma tradição editorial que atravessou a Inquisição, a censura e o imaginário de gerações.
Para perceber o que é, de facto, este livro — e o que é apenas lenda vestida de livro — é preciso começar não pelas páginas, mas pelo nome que lhes dá autoridade: Cipriano.
Segundo a tradição hagiográfica, Cipriano de Antioquia foi, antes de tudo, um sacerdote pagão educado nas artes sacerdotais do seu tempo — e, através delas, ter-se-ia posto ao serviço do que a lenda chama de "magia negra". A história mais contada sobre ele liga-se a uma jovem cristã chamada Justina: um homem de nome Aglaides terá contratado Cipriano para que, através de artes mágicas, conquistasse o amor de Justina, mulher de fé firme e vida celibatária.
A lenda conta que Cipriano tentou repetidas vezes vencer a resistência de Justina — algumas fontes populares falam mesmo em "amarrações" e práticas de morais questionáveis —, mas a jovem reverteu cada investida através da sua fé. O desfecho é o ponto alto da história: o próprio Diabo, incapaz de realizar o que lhe fora pedido, terá admitido que o poder de Deus era superior ao seu. Perante isto, Cipriano renega o pacto, converte-se ao cristianismo e torna-se, segundo a tradição, seguidor fervoroso da nova fé, vindo a morrer mártir.
É aqui que a história pede cautela: este Cipriano de Antioquia é frequentemente confundido com outra figura, Cipriano de Cartago, bispo e mártir do século III, que nada tem a ver com feitiçarias ou pactos diabólicos. A confusão entre os dois santos homónimos acompanha a tradição há séculos e ajuda a explicar como um nome ligado à santidade acabou por emprestar prestígio a um livro de magia popular.
O chamado Livro de São Cipriano não é um texto único nem antigo no sentido estrito. Trata-se, na realidade, de uma designação que cobre diferentes grimórios dos séculos XVII, XVIII e XIX, todos atribuídos — de forma pseudepigráfica, isto é, atribuídos a um autor que não os escreveu — ao santo de Antioquia. Não existe um manuscrito original de Cipriano; existe, sim, uma tradição de compilações que foram crescendo, copiando-se e reinventando-se ao longo de gerações.
A obra ciprânica mais antiga que se conhece data de 1810 e afirma ter sido traduzida do latim, sob o título de Heptameron. A partir daí, sobretudo ao longo do século XIX, multiplicam-se as edições em português e em castelhano — o que os estudiosos chamam de "Cipriano ibérico": não um livro, mas múltiplos textos aparentados, publicados sobretudo em Espanha e em Portugal. Há ainda referência a uma literatura ciprânica pré-moderna, hoje perdida, da qual não restam cópias conhecidas.
As edições portuguesas populares, já do final do século XIX, consolidaram o formato que ainda hoje se reconhece nas bancas: orações, esconjuros, receitas de amor e — um elemento muito específico da tradição ibérica — listas de tesouros enterrados na Galiza. Este último pormenor é revelador: liga o livro não só ao imaginário da magia amorosa, mas também à fantasia popular de riquezas escondidas, um tema recorrente na cultura galega e do norte de Portugal.
A reputação sulfurosa do Livro de São Cipriano deve bastante às próprias editoras que o publicaram ao longo do século XX, apresentando-o como obra "profana e insondável", repleta de "feitiços práticos" e "complexos rituais de magia negra" — uma estratégia comercial que tornou o livro objeto de desejo tanto de colecionadores como de curiosos das chamadas ciências proibidas. Mas, como notam estudos sobre o tema, a realidade do conteúdo está longe de ser tão sinistra quanto a publicidade sugere.
Importa também situar este fenómeno no contexto mais amplo da perseguição à magia popular na Península. Em Portugal, a Inquisição, ativa entre 1536 e 1821, perseguiu sobretudo cristãos-novos, mas os seus processos — hoje guardados na Torre do Tombo — registaram também feiticeiras, adivinhos, saludadores (curandeiros tidos por dotados de nascença) e nigromantes. Nesses processos aparecem orações de amor, conjuros a estrelas e demónios, e as chamadas "cartas de tocar", papéis com palavras e sinais que, ao tocarem a pessoa desejada, pretensamente a prenderiam a quem os usasse. É um paralelo direto com o tipo de conteúdo que depois se compilaria nos livros ciprânicos.
Vale notar, no entanto, que em Portugal houve muito menos fogueiras por bruxaria do que no centro da Europa — o historiador Francisco Bethencourt, autor de referência sobre o tema, descreveu precisamente este imaginário da magia nos processos do século XVI. O maior arquivo de magia popular portuguesa acabou por ser escrito, paradoxalmente, pelos seus perseguidores: os próprios inquisidores, ao registarem o que condenavam, preservaram o que de outro modo se teria perdido.
Despido do verniz publicitário, o conteúdo do Livro de São Cipriano é, segundo as próprias edições populares, uma mistura de géneros: orações, esconjuros, fórmulas de proteção e de sorte, ao lado de práticas amorosas e, nalgumas versões, listas de tesouros enterrados na Galiza. A edição da editora Nascente, uma das mais fáceis de encontrar em Portugal, inclui a própria narrativa da vida de Cipriano como parte do livro — ou seja, a lenda hagiográfica funciona simultaneamente como prefácio e como garantia de autoridade para o resto do conteúdo.
É um género literário com nome próprio nos estudos académicos: a investigadora brasileira Jerusa Pires Ferreira dedicou-lhe um estudo específico, descrevendo-o como "uma legenda de massas" — ou seja, um fenómeno de cultura popular impressa, multiplicado por diferentes editores ao longo do século XX, cada um acrescentando ou adaptando conteúdos consoante o mercado. Não há, portanto, uma única versão "autêntica": há uma família de edições, todas reivindicando a mesma origem lendária.
Esta fama de livro profano fez dele também objeto de disputa simbólica entre diferentes tradições religiosas de matriz afro-brasileira, onde circula e é lido de formas distintas consoante o contexto. O livro atravessou, assim, fronteiras religiosas e nacionais, sempre carregando o mesmo nome e a mesma lenda fundadora, mas assumindo significados diferentes consoante quem o lê e onde é lido.
Fica claro que o Livro de São Cipriano não é um grimório antigo nem um texto único: é uma tradição editorial, nascida sobretudo no século XIX, que tomou de empréstimo o nome e a lenda de um santo — Cipriano de Antioquia, o feiticeiro convertido, muitas vezes confundido com Cipriano de Cartago — para dar autoridade a compilações de orações, esconjuros e crenças populares ibéricas.
A fama de "proibido" deve mais à estratégia de venda das editoras e ao fascínio humano pelo oculto do que a qualquer interdição documentada específica sobre esta obra. O que resta, depois de separar o facto da lenda, é um retrato fascinante de como a religiosidade popular, a magia e a fé conviveram — e ainda convivem — nas margens da cultura ibérica.
Não. É uma atribuição pseudepigráfica: o nome de Cipriano de Antioquia, figura de uma lenda hagiográfica, foi usado para dar autoridade a compilações populares dos séculos XVII a XIX, sem que exista um manuscrito original do próprio santo.
Não, são frequentemente confundidos, mas são figuras distintas. Cipriano de Antioquia é o feiticeiro convertido da lenda ligada a Justina; Cipriano de Cartago foi um bispo e mártir do século III, sem relação com histórias de magia.
Não há um registo de proibição legal específica desta obra; a fama de "livro proibido" vem sobretudo da forma como editoras o promoveram ao longo do século XX, associando-o a magia negra e a práticas secretas.
A obra ciprânica mais antiga que se conhece data de 1810 e apresenta-se como tradução do latim, sob o título Heptameron; as edições populares portuguesas e galegas, como as hoje conhecidas, são sobretudo dos séculos XIX e XX.
Entre a fé e o feitiço, o nome de Cipriano continua a abrir portas que a história só entreabre.
— OraculuminusFontes
Artigo elaborado pela equipa do Oraculuminus a partir das fontes indicadas e revisto antes de ser publicado. As tradições e lendas são apresentadas como tal.
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