Espiritualidade & Mistério // Pombagiras e Tradições Afro-Brasileiras

Maria Padilha: da corte de Castela à pombagira

Entre crónicas medievais, autos de Inquisição e terreiros de Umbanda, o nome de Maria Padilha percorreu seis séculos e um oceano sem nunca perder o fascínio.

Maria Padilha: da corte de Castela à pombagira
// Prólogo

Uma mulher acusada de enfeitiçar um rei

Há nomes que atravessam séculos como se fossem rios subterrâneos, reaparecendo onde menos se espera. Maria Padilha é um deles. Hoje invocada em terreiros de Umbanda e Quimbanda como rainha das encruzilhadas, a sua origem remonta a uma corte medieval castelhana, a um rei chamado 'o Cruel' e a uma mulher que a história acusou de ter, por artes de feitiçaria, dobrado a vontade de um monarca.

Entre a María de Padilla que respirou e morreu em Sevilha no século XIV e a pombagira invocada hoje em terreiros brasileiros vai uma distância enorme, feita de lendas, traduções culturais e reinvenções religiosas. Este é o percurso, tanto quanto os documentos permitem reconstruí-lo.

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// A Favorita

A favorita de Pedro I de Castela

Os historiadores situam o nascimento de María de Padilla por volta de 1334, algures em Castela. Era filha de Juan García de Padilla e de doña María Gómez de Hinestrosa. Conheceu o rei Pedro I quando tinha apenas dezoito anos, nas Astúrias, onde o monarca combatia o meio-irmão Henrique de Trastâmara. As crónicas da época descrevem-na como 'muy fermosa, e de buen entendimiento e pequeña de cuerpo'.

Tornou-se amante do rei desde finais de 1351 até à morte dela, dez anos depois. Pedro I nomeou-a senhora de Huelva e teve com ela três filhas e um filho. Mas a razão de estado impunha-lhe outros laços: foi obrigado a casar com Blanca de Borbón por um matrimónio já pactuado, e abandonou-a três dias depois, acusando-a de infidelidade. Pressionado pelo clero, casou ainda com Juana de Castro, sem que isso alterasse a relação que mantinha com María de Padilla.

A tradição recolhida sobre o período sugere que Dona Maria Padilla terá influenciado o rei nas decisões mais importantes, incluindo o modo de governar e a própria negociação do malfadado casamento com Blanca de Borbón, numa aliança pensada com a França.

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// Rainha Póstuma

Rainha depois de morta

Em 1361, Pedro I terá mandado assassinar Blanca de Borbón para poder coroar María rainha — mas ela morreu antes, em Sevilha, nesse mesmo mês de julho, possivelmente vítima da peste que assolava a época. Foi só um ano depois que o rei confessou publicamente ter casado com ela em segredo, conseguindo que fosse reconhecida como rainha póstuma e os seus filhos como legítimos.

A rainha viúva María de Portugal chegou a acusar María de Padilla de instigar os nobres contra o rei, acusação que precedeu o próprio assassínio da rainha viúva, ordenado por Pedro I. Episódios como este alimentaram, já em vida, a fama de mulher perigosa que a acompanharia para sempre.

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// A Lenda

De amante a feiticeira no romanceiro popular

Foram sobretudo os cronistas do bando Trastâmara, inimigos políticos de Pedro I, que construíram a imagem de María de Padilla como mulher sedutora e manipuladora — um rei hipnotizado, incapaz de resistir aos seus encantos. Outros relatos da época preferem retratá-la como mulher de bom coração, vítima das circunstâncias tanto quanto protagonista delas.

Foi esta imagem ambígua, de mulher fatal com poder sobre um monarca, que ficou gravada no romanceiro popular e, séculos mais tarde, inspirou obras teatrais e líricas, incluindo textos de Prosper Mérimée e Alexandre Dumas. Um artigo académico propõe mesmo que a receção póstuma de María de Padilla dialogou com a tradição ibérica demonológica da 'moura encantada' feiticeira — um imaginário que preparou o terreno para o que estava para vir.

muy fermosa, e de buen entendimiento e pequeña de cuerpo

— Crónicas castelhanas do século XIV
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// A Travessia

O nome que atravessou o Atlântico

A fama de feiticeira associada ao nome de Maria Padilha passou para as orações de feitiçaria ibéricas, e foi assim que chegou ao Brasil, trazida por mulheres degredadas. Nos autos da Inquisição regista-se o caso de Antónia Maria, natural de Beja, degredada para o Recife depois de passar por Angola, em 1718: invocava Barrabás, Satanás, Lúcifer e 'Maria Padilha com toda a sua quadrilha'.

Como escreve a investigadora Marlyse Meyer, cuja obra de referência sobre o tema — 'Maria Padilha e toda a sua quadrilha: de amante de um rei de Castela a Pomba-Gira de Umbanda', publicada em 1993 — é hoje incontornável, Maria Padilha talvez seja o maior exemplo da 'geleia geral da magia brasileira': uma entidade forjada a partir de feitiços pagãos, bíblicos, cabalísticos e ciganos, reelaborados pelo cristianismo da Inquisição, com influências africanas e islâmicas somadas pelo caminho.

É importante notar, porém, que o investigador Ronaldo Rego sublinha não existirem provas de que a Maria Padilha das religiões afro-brasileiras seja efetivamente a mesma figura histórica de María de Padilla. A ligação é antes uma hipótese bem documentada, a mais aceite entre os investigadores, mas não uma certeza genealógica absoluta.

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// A Pombagira

Rainha das encruzilhadas na Umbanda

No Brasil, o nome renasceu como uma das pombagiras mais conhecidas da Umbanda e da Quimbanda. Pomba Gira é o espírito afro-brasileiro invocado por praticantes destas tradições, consorte de Exu, o mensageiro dos Orixás no Candomblé; o termo deriva do quimbundo pambuanjila, que significa literalmente 'encruzilhada'.

Fontes da própria tradição religiosa sublinham que Maria Padilha não é uma única entidade, mas uma falange — um grande agrupamento de Pombagiras que trabalham sob esse nome, com diversas 'qualidades'. Há quem lhe chame negra e princesa africana, quem lhe chame branca e princesa, quem a veja como professora, e quem lhe atribua um estatuto de realeza, como mãe de Pombagira e mulher de Lúcifer — múltiplas leituras que convivem sem se excluírem.

Os primeiros grimórios impressos de umbanda datam do início da década de 1940, e foi também nessa década, no Rio de Janeiro, que Lourenço Braga publicou o livro que configurou a quimbanda como antítipo da umbanda, alterando o sentido original destes termos vindos das culturas centro-africanas. Só na década de 1950 surgiram obras de 'umbanda branca' com a imagem da pombagira já estampada na capa. Hoje, Maria Padilha é associada ao amor, à autoestima e à abertura de caminhos, trabalhando na chamada linha de esquerda — embora, tecnicamente, não seja um orixá, mas sim uma entidade espiritual feminina, guia dentro do universo afro-brasileiro.

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O que fica

Entre a nobre castelhana que morreu de peste em Sevilha e a pombagira hoje invocada em terreiros brasileiros, não há uma linha reta e comprovada, mas sim uma longa deriva cultural: lenda ibérica, orações de feitiçaria, autos inquisitoriais, travessia atlântica e, por fim, reinvenção religiosa. É essa deriva, mais do que qualquer certeza genealógica, que torna Maria Padilha uma das figuras mais fascinantes da espiritualidade luso-brasileira — uma mulher real transformada, por séculos de narrativa, em símbolo do poder feminino que inquieta e fascina em igual medida.

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// Perguntas frequentes

Maria Padilha existiu mesmo?

Sim, enquanto figura histórica: María de Padilla (c. 1334–1361) foi amante do rei Pedro I de Castela, reconhecida postumamente como rainha. A ligação entre esta mulher e a entidade espiritual invocada hoje no Brasil é uma hipótese amplamente aceite, mas sem prova genealógica definitiva, segundo investigadores como Ronaldo Rego.

Porque é que Maria Padilha era considerada feiticeira?

Os cronistas inimigos de Pedro I, do bando Trastâmara, construíram a imagem de uma mulher sedutora e manipuladora que teria enfeitiçado o rei para dominar as suas decisões. Essa fama passou ao romanceiro popular e, depois, às orações de feitiçaria ibéricas.

Maria Padilha é um orixá?

Não. Embora por vezes seja chamada de 'deusa', Maria Padilha não é tecnicamente um orixá, mas uma entidade espiritual feminina, uma Pombagira, associada ao universo da Umbanda e da Quimbanda e consorte de Exu no Candomblé.

Como é que o nome chegou ao Brasil?

Através de mulheres degredadas de Portugal, como Antónia Maria, de Beja, que em 1718, segundo os autos da Inquisição, invocava 'Maria Padilha com toda a sua quadrilha' já no Recife, depois de passar por Angola.

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De Sevilha às encruzilhadas, o nome nunca deixou de abrir caminhos.

— Oraculuminus

Fontes

Artigo elaborado pela equipa do Oraculuminus a partir das fontes indicadas e revisto antes de ser publicado. As tradições e lendas são apresentadas como tal.

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