Portugal Oculto // Fernando Pessoa

Fernando Pessoa, Astrólogo: os Mapas Astrais que Traçou em Segredo

Antes de ser estudado como poeta, Pessoa quis ser lido como astrólogo. O espólio guarda a prova: centenas de mapas, um heterónimo próprio para o ofício e um método que ele próprio levava a sério.

Fernando Pessoa, Astrólogo: os Mapas Astrais que Traçou em Segredo
// Prólogo

Um poeta com caderno de astrólogo

Há uma imagem de Fernando Pessoa que resiste a qualquer tentativa de arrumação fácil: a do homem de fato escuro, gravata apertada, sentado à secretária em Lisboa, não a escrever versos mas a desenhar círculos divididos em doze casas, com símbolos de planetas e signos traçados à mão. Essa imagem não é lenda nem hipótese de biógrafo entusiasmado. É facto documentado: no espólio de Pessoa, guardado como património nacional na Biblioteca Nacional de Portugal, foram catalogados cerca de 318 mapas astrológicos desenhados pelo próprio punho do poeta.

Os escritos astrológicos mais antigos conhecidos de Pessoa remontam a 1908, quando tinha apenas vinte anos, e a prática acompanhou-o até ao fim da vida. Não foi um capricho de juventude nem uma curiosidade passageira. Foi um hábito de décadas, sustentado por leitura técnica, correspondência com especialistas e um método que o investigador Paulo Cardoso descreve como 'a mais prudente, crítica e metódica' abordagem possível à disciplina.

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// O estudante de astrologia

"I am a student of astrology"

Em 24 de julho de 1915, Pessoa escreveu ao editor de 'A Thousand and One Notable Nativities', do astrólogo britânico Alan Leo, apresentando-se sem rodeios: 'I am a student of astrology' — sou um estudante de astrologia. Não era uma frase de circunstância. No espólio existem exemplares e referências a obras de astrólogos como George Wilde e Sepharial (pseudónimo de Walter Gorn Old, astrólogo e membro da Sociedade Teosófica Inglesa), datados de 1909 a 1915, que Pessoa leu e anotou como quem estuda uma ciência e não apenas um passatempo esotérico.

Foi nesse contexto de estudo sério que, em 1915, Pessoa inventou o heterónimo Raphael Baldaya, descrito como um astrólogo de longa barba. Mário de Sá-Carneiro, em carta de 24 de dezembro desse ano, comentou com humor a 'incarnação em Rafael Baldaya, astrólogo de longas barbas' — prova de que os amigos próximos sabiam da brincadeira séria que Pessoa levava consigo. Baldaya não ficou só no nome: assinou textos de teoria astrológica, entre eles a 'New Theory of Astrological Periods', e surgiu ligado a diferentes projetos de um Tratado de Astrologia, incluindo um intitulado 'Systema de Astrologia' e outro 'Introdução ao estudo do ocultismo'.

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// O negócio dos horóscopos

Astrólogo profissional, com tabela de preços

Em janeiro de 1916, Pessoa deu um passo que poucos biógrafos sublinham com o devido peso: instalou-se oficialmente como astrólogo em Lisboa. Foi nessa altura que escreveu um 'Ensaio de Astrologia', assinado sob o sub-heterónimo Raphael Baldaya, onde elaborou o seu próprio horóscopo. Ao mesmo tempo, estabeleceu uma tabela de honorários para a realização de horóscopos, que variavam entre os 500 e os 5000 réis — valores que sobrevivem num fragmento do espólio em que, pela voz de Baldaya, Pessoa se anuncia como astrólogo profissional e publicita a sua teoria original.

Jerónimo Pizarro, catedrático que prefaciou a obra de referência sobre o tema, confirmou à Lusa que Pessoa 'ganhou alguns tostões com a astrologia'. No espólio há muitos cartões com nome, data e hora de nascimento de clientes, o que sugere que Pessoa traçava de facto as respetivas cartas astrológicas mediante pagamento — um ofício paralelo à poesia, exercido com a mesma disciplina técnica.

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// Almas com mapa

Os heterónimos nasceram sob céus próprios

O aspeto mais revelador do arquivo astrológico de Pessoa não está nos mapas de desconhecidos pagantes, mas naquilo que fez aos seus próprios heterónimos. Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos não foram apenas dotados de biografia, estilo e temperamento literário — Pessoa deu-lhes datas de nascimento e traçou-lhes horóscopos completos, incluindo mapas de nascimento e, nalguns casos, de óbito.

Segundo Paulo Cardoso, todos os horóscopos dos heterónimos principais apresentam Mercúrio, o planeta associado à literatura — que é também o planeta regente de Gémeos, o signo solar do próprio Pessoa. Ao nível do ascendente, formava-se ainda uma correspondência simbólica com os quatro elementos: Pessoa em Água, Caeiro em Fogo, Campos em Terra e Reis em Ar — uma espécie de fraternidade astral, em que cada máscara literária ocupava um lugar distinto no mesmo céu de origem.

Este pormenor muda a forma como se pode ler o fenómeno heteronímico. Os heterónimos não eram só personas construídas para experimentar estilos poéticos diferentes: tinham mapa astral próprio, como se fossem, aos olhos do seu criador, entidades com destino inscrito nos astros — almas com carta celeste, não apenas nomes numa folha de rosto.

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// Figuras do mundo, traçadas a régua e compasso

De Napoleão a Shakespeare: mais de 1500 mapas

Para além de si e dos heterónimos, Pessoa dedicou uma energia impressionante a traçar mapas de figuras históricas e contemporâneas — mais de 1500 personagens, segundo o levantamento feito ao espólio. Entre os nomes contam-se Napoleão, a Rainha D. Amélia, Robespierre, Guilherme II da Alemanha, D. Carlos de Portugal, D. Sebastião, Lord Byron, Sidónio Pais, Salazar, Mussolini, Chopin, Victor Hugo, Oscar Wilde, Raul Leal e Shakespeare. Nalguns casos, como os de Napoleão, D. Amélia, Raul Leal ou Oscar Wilde, Pessoa repetiu a carta da mesma pessoa em alturas diferentes — sinal de que voltava aos mapas, corrigia, testava hipóteses, tratava o cálculo astrológico como trabalho em progresso e não como exercício único.

Esse rigor levou-o, em 1929, a um episódio notável: depois de ler 'The Confessions of Aleister Crowley', Pessoa detetou um erro no horóscopo do mago britânico publicado no livro e comunicou-o à editora Mandrake Press. Em carta a Crowley, datada de 4 de dezembro de 1929, informou-o de que tinha retificado a sua hora de nascimento pelo método de 'direções', chegando a uma hora corrigida de 23:16:39. O episódio não ficou só na troca de cartas: Crowley e Pessoa encontraram-se três vezes em Portugal em 1930, um encontro que culminou na simulação do suicídio do mago na Boca do Inferno, em Cascais — notícia saída no suplemento Notícias Ilustrado do Diário de Notícias, redigida pelo próprio Pessoa mas assinada por Ferreira Gomes.

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// O mapa de si mesmo

Sol em Gémeos, Ascendente em Escorpião

Fernando Pessoa nasceu em Lisboa a 13 de junho de 1888 e morreu a 30 de novembro de 1935 — dados que ele próprio usou, ano após ano, para refinar o seu mapa astral: Sol em Gémeos, Ascendente em Escorpião. Não se contentou com um cálculo único: retificou o próprio horóscopo ao longo do tempo, chegando a fixar o Ascendente no quarto grau de Escorpião, com o mesmo cuidado técnico que aplicava aos mapas de terceiros.

Jerónimo Pizarro afirma que Pessoa chegou a calcular, com grande proximidade, o seu próprio ano de morte — 1935 — o que gerou reflexões do poeta sobre o assunto. É um dado que não se explica por si só, mas que reforça a ideia de que Pessoa não via a astrologia como simples entretenimento literário: via-a como instrumento de autoconhecimento e, possivelmente, de antecipação do próprio destino.

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O que fica

O espólio de Fernando Pessoa, com cerca de 30 mil papéis guardados na Biblioteca Nacional de Portugal, mostra um homem que tratou a astrologia com a mesma disciplina que dedicava à poesia: estudou tratados, correspondeu-se com autores da área, montou um negócio com tabela de preços, inventou um heterónimo específico para o ofício e aplicou o método aos próprios heterónimos literários, dando-lhes mapa de nascimento como se tivessem existência real e destino próprio.

A obra de referência sobre o tema, 'Fernando Pessoa — Cartas Astrológicas', editada por Paulo Cardoso e Jerónimo Pizarro, reúne este material disperso e mostra como a astrologia atravessa toda a obra de Pessoa — da compreensão que tinha de si mesmo à forma como imaginou o destino de Portugal em 'Mensagem', e à própria arquitetura íntima dos heterónimos que o tornaram único na literatura.

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// Perguntas frequentes

Fernando Pessoa era mesmo astrólogo?

Sim, no sentido prático: instalou-se oficialmente como astrólogo em Lisboa em janeiro de 1916, cobrava honorários por horóscopos e deixou no espólio cerca de 318 mapas astrológicos desenhados pelo próprio.

Quem era Raphael Baldaya?

Um heterónimo criado por Pessoa em 1915, apresentado como astrólogo de longa barba, a quem o poeta atribuiu textos de teoria astrológica, como a 'New Theory of Astrological Periods', e projetos de tratados sobre o tema.

Pessoa fez horóscopos dos seus heterónimos?

Sim. Deu datas de nascimento a Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos e traçou-lhes mapas de nascimento e, nalguns casos, de óbito, encontrando em todos a presença de Mercúrio, planeta da literatura.

O que revela o episódio com Aleister Crowley?

Em 1929, Pessoa detetou um erro no horóscopo de Crowley publicado num livro e corrigiu a hora de nascimento do mago por cálculo próprio, o que levou a um encontro pessoal em Portugal em 1930 e à encenação de um falso suicídio na Boca do Inferno, em Cascais.

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Nos círculos e nas casas que desenhava à mão, Pessoa procurava talvez a única coisa que a poesia, por si só, não lhe podia dar: um mapa do que estava para vir.

— Oraculuminus

Fontes

Artigo elaborado pela equipa do Oraculuminus a partir das fontes indicadas e revisto antes de ser publicado. As tradições e lendas são apresentadas como tal.

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