A neurociência sabe exatamente onde os sonhos acontecem no cérebro. O que continua sem saber — e talvez nunca saiba — é porque escolhem as histórias que escolhem. Freud, Jung e oitenta anos de laboratório do sono, numa só investigação.
Passamos, em média, cerca de seis anos da vida a sonhar — e a maior parte de nós lembra-se de uma fração ínfima disso. Durante décadas, a ciência tratou os sonhos como ruído neurológico sem significado. Hoje sabe-se que não é bem assim: o cérebro a sonhar está ativo, organizado, e a fazer algo que parece ter propósito. O que continua por resolver é o quê, exatamente, esse propósito é — e é aí que a neurociência e a psicologia simbólica, apesar de partirem de pontos opostos, acabam por se cruzar.
Até meados do século XX, ninguém sabia sequer quando, fisicamente, os sonhos ocorriam. Isso mudou em 1953, quando o investigador Eugene Aserinsky, orientado por Nathaniel Kleitman na Universidade de Chicago, identificou o sono REM (Rapid Eye Movement) — uma fase do sono caracterizada por movimentos oculares rápidos, atividade cerebral quase tão intensa como em vigília, e paralisia quase total dos músculos voluntários.
Quando os investigadores acordavam voluntários durante o sono REM, estes relatavam sonhos vívidos e narrativos em cerca de oitenta por cento dos casos. Pela primeira vez, a ciência tinha uma janela física para o momento exato em que o cérebro constrói uma história enquanto o corpo permanece imóvel.
Em 1977, os investigadores J. Allan Hobson e Robert McCarley propuseram a hipótese da ativação-síntese: durante o sono REM, o tronco cerebral gera sinais elétricos aleatórios, e o córtex — a parte do cérebro responsável por interpretar e narrar — tenta dar sentido a esse ruído, tecendo-o numa história coerente, ainda que muitas vezes bizarra.
Mais recentemente, o investigador finlandês Antti Revonsuo propôs a teoria da simulação de ameaças: os sonhos, sobretudo os de conteúdo ansioso ou perigoso, funcionariam como um simulador evolutivo — um treino seguro para reconhecer e responder a ameaças reais, herdado de um passado em que sobreviver dependia de reagir depressa ao perigo.
O cérebro não desliga a contar histórias à noite. Continua a fazer exatamente o que faz de dia — só que sem os dados sensoriais do mundo real para o manter ancorado.
— Síntese da neurociência do sono contemporâneaEm 1899 (com data oficial de 1900), Sigmund Freud publicou A Interpretação dos Sonhos, propondo que todo o sonho é a realização disfarçada de um desejo reprimido — o "guardião do sono" a transformar impulsos inaceitáveis em imagens simbólicas suficientemente disfarçadas para não nos acordar de choque.
Carl Jung, discípulo próximo de Freud durante anos, rompeu com ele em parte por discordar precisamente disto. Para Jung, o sonho não era principalmente sobre desejo reprimido, mas sobre compensação e individuação — a psique a tentar equilibrar aquilo que a vida consciente ignora, e a apontar caminhos de crescimento através de símbolos partilhados por toda a humanidade, o que chamou de arquétipos do inconsciente coletivo.
O sonho esconde. A tua tarefa é decifrar o que ele disfarça — geralmente algo que preferes não admitir a ti mesmo.
O sonho revela. A tua tarefa é escutar o que a parte mais sábia de ti está a tentar dizer à parte mais desperta.
A neurociência explica muito bem o onde e o quando dos sonhos. Explica cada vez melhor o como — os circuitos, os neurotransmissores, as fases. O que continua profundamente em aberto é o porquê do conteúdo específico: porque sonhas precisamente com aquela casa da tua infância, aquela pessoa que já não vês há anos, aquele animal específico. Nenhuma teoria neurológica prevê o conteúdo simbólico particular de um sonho individual — só o mecanismo geral que o produz.
É exatamente nesse espaço em aberto que a interpretação simbólica continua a ter valor prático, mesmo sem estatuto científico: não como previsão, mas como um exercício estruturado de auto-observação, usando o sonho como matéria-prima para perguntas que a vigília raramente nos deixa fazer com tanta honestidade.
Nos anos 1980, o investigador Stephen LaBerge, na Universidade de Stanford, demonstrou cientificamente algo que praticantes de meditação já descreviam há séculos: é possível ter consciência, dentro do sonho, de que se está a sonhar — e treinar essa capacidade. LaBerge desenvolveu protocolos verificáveis em laboratório (usando sinais oculares combinados, já que os olhos são dos poucos músculos não paralisados durante o REM) que confirmaram a existência do sonho lúcido como estado neurologicamente distinto, não apenas relato subjetivo.
Os sonhos são, ao mesmo tempo, um fenómeno neurológico bem documentado e um território de significado pessoal que a ciência não se propõe a esgotar. Saber como o cérebro produz um sonho não diz nada sobre o que esse sonho significa para ti — essa é uma pergunta que continua a pertencer, legitimamente, ao território simbólico e pessoal.
Freud e Jung discordaram sobre quase tudo — mas concordaram nisto: um sonho vale a pena ser levado a sério.
Não escolhes o que sonhas. Mas escolhes o que fazes com o que sonhaste.
— OraculuminusEste artigo baseia-se em investigação documentada: a descoberta do sono REM (Aserinsky & Kleitman, 1953), a hipótese da ativação-síntese (Hobson & McCarley, 1977), a teoria da simulação de ameaças (Revonsuo, 2000), a obra de Freud e Jung sobre interpretação dos sonhos, e a investigação sobre sonho lúcido de Stephen LaBerge. O Oraculuminus apresenta a interpretação de sonhos como ferramenta de entretenimento e reflexão pessoal.
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